"Lembro a primeira vez que retornei ao Bonfim depois de tê-lo renegado. Foram só dois meses distante, o suficiente pra resgatar a memória afetiva que me fez gente e indelevelmente soteropolitano. Despontei na Avenida Dendezeiros, uma das mais bonitas de Salvador, e vi, em meio às árvores decenárias, a igreja imponente. Chorei de remorso. Ali passei alguns dos melhores anos da minha infância, baldeando pelas praças e praias, perscrutando lojinhas de artesanato que colocavam lado a lado imagens de santos católicos e orixás. Hoje olho com certa melancolia para a decadência da península itapagipana, seu casario aristocrático profanado por lajes mal ajambradas, e me apavoro com a sensação de pertencimento. Depois de ter renegado a Cidade Baixa, descobri que, além de tudo, ela me define. Há uma Salvador muito emblemática ali, uma Salvador que tinha imensa vontade de ser européia e que se transformou na pérola do degredo lusitano. Somos a cópia mal acabada do velho continente, e, ainda assim, nada nos restou de nobreza. Não me importo. Nos projetos fracassados reside toda a verdade da vida."
Indelevelmente soteropolitano, por Márcio Matos.







